Não somos nada. Não somos ninguém... devemos olhar a vida de frente, vive-la da forma que gostamos, da forma que nos sentimos melhor, jamais criticar o outro, por isto ou aquilo banalmente. Cada um de nós é um ser individual, com gostos muitos pessoais, peculiares ou mesmo extravagantes que sejam mas são unicamente nossos e de mais ninguém. Olhemos para nós, para dentro do nosso ser e sejamos nós próprios sem gastar tempo e animo a ver e criticar os pseudo-defeitos dos outros ao invés de assumir que também nós temos defeitos como todos os outros. Eu sou o que sou, sou quem sou, apenas uma mulher que aqui se espelha, que gosta de tudo o que aqui fixa e se assume assim, tal e qual como é e como se sente. Eu sou isto, eu sou o que aqui lêem, tudo o que aqui vêem e tudo o que aqui ouvem. E sou ainda muito mais... Mas este espaço só é digno de alguns... Só é digno de quem se olha no espelho , reconhece os seus defeitos e sabe respeitar os outros... Boa Viagem!


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Romance de Pompeia







Ninguém nos vem em socorro
Ninguém nos liberta os braços
Há dois milénios que somos
os amantes soterrados
Nem o mais ínfimo agouro
na manhã daquela tarde
Mas era o último encontro
sem que ninguém o sonhasse
E soubemos ir tão longe
tão enlaçados ficámos
que em tudo vibrava o ‘sboço
de uma já eternidade
Mergulhados neste sono
há dois milénios ou quase
é ainda o dia de hoje
esse ontem tão recuado
Ou foi sonho o dia de ontem
e desde então acordados
nem cremos que à nossa roda
existisse uma cidade
que lá fora houvesse um Foro
lojas   casas   balneários
Apenas o teu pescoço
Apenas as tuas pálpebras
Apenas o antegosto
de sabê-las deflagradas
Sentimos súbito um sopro
mais escaldante   Julgámos
que o ar se tornara louco
do calor dos nossos lábios
que ia arder o mundo todo
com o fogo que lhe dávamos
Só depois vimos que o fogo
de encontro a nós avançava
líquido   espesso   de rojo
como um imenso lagarto
putrefacto e cujo dorso
cada vez mais coruscava
E tanto crescia em torno
da casa onde nós ‘stávamo
e tanto subia ao topo
de paredes e telhado
e tanto o ardente bojo
se ia tornando compacto
que de súbito esse forno
de todo nos apertava
Leio terror no teu rosto
pânico em tuas ‘spáduas
pavor em todo o teu corpo
que era há pouco o de uma galga
o de uma galga no ponto
mais elevado do orgasmo
E nesse ponto de há pouco
eternizados ficámos
Somos assim um do outro
Há dois milénios ou quase
saboreando o tesouro
da eternidade do auge
Ao profundissímo poço
até hoje inviolado
que no chão se abriu e onde
vivos ainda tombámos
chegam-nos vagos rumores
do que por cima se passa
todo o sonho   todo o logro
que por cima tem passado
Cascos agudos de donos
de pés desnudos de escravos
cupidez de demagogos
estupidez de soldados
os que bramam contra o lodo
para mais lodo criarem
os que rastejam no tojo
até se julgarem águias
os que ao céu o fogo roubam
mas em fumo se desfazem
utopias de alguns tontos
visões de alguns visionários
que se se quebram de encontro
ao gelo dos homens práticos
de cujos hábeis engodos
nos poderiam ter salvo
E também a luz   a força
de corpos jovens e ágeis
corças   panteras   e potras
mais belas quanto selvagens
à lei do que há-de ser podre
todavia condenadas

Antes o fim que nos coube
Se é que fim pode chamar-se
a este abraço em que somos
um só astro   uma só ‘státua
uma só chama   um só tronco
por toda a eternidade
mais livres porque um do outro
um ao outro acorrentados
Ninguém nos venha em socorro
Ninguém nos deslace os braços

David Mourão-Ferreira

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