Ninguém
nos vem em socorro
Ninguém
nos liberta os braços
Há
dois milénios que somosos amantes soterrados
Nem o mais ínfimo agouro
na manhã daquela tarde
Mas era o último encontro
sem que ninguém o sonhasse
E soubemos ir tão longe
tão enlaçados ficámos
que em tudo vibrava o ‘sboço
de uma já eternidade
Mergulhados neste sono
há dois milénios ou quase
é ainda o dia de hoje
esse ontem tão recuado
Ou foi sonho o dia de ontem
e desde então acordados
nem cremos que à nossa roda
existisse uma cidade
que lá fora houvesse um Foro
lojas casas balneários
Apenas o teu pescoço
Apenas as tuas pálpebras
Apenas o antegosto
de sabê-las deflagradas
Sentimos súbito um sopro
mais escaldante Julgámos
que o ar se tornara louco
do calor dos nossos lábios
que ia arder o mundo todo
com o fogo que lhe dávamos
Só depois vimos que o fogo
de encontro a nós avançava
líquido espesso de rojo
como um imenso lagarto
putrefacto e cujo dorso
cada vez mais coruscava
E tanto crescia em torno
da casa onde nós ‘stávamo
e tanto subia ao topo
de paredes e telhado
e tanto o ardente bojo
se ia tornando compacto
que de súbito esse forno
de todo nos apertava
Leio terror no teu rosto
pânico em tuas ‘spáduas
pavor em todo o teu corpo
que era há pouco o de uma galga
o de uma galga no ponto
mais elevado do orgasmo
E nesse ponto de há pouco
eternizados ficámos
Somos assim um do outro
Há dois milénios ou quase
saboreando o tesouro
da eternidade do auge
Ao profundissímo poço
até hoje inviolado
que no chão se abriu e onde
vivos ainda tombámos
chegam-nos vagos rumores
do que por cima se passa
todo o sonho todo o logro
que por cima tem passado
Cascos agudos de donos
de pés desnudos de escravos
cupidez de demagogos
estupidez de soldados
os que bramam contra o lodo
para mais lodo criarem
os que rastejam no tojo
até se julgarem águias
os que ao céu o fogo roubam
mas em fumo se desfazem
utopias de alguns tontos
visões de alguns visionários
que se se quebram de encontro
ao gelo dos homens práticos
de cujos hábeis engodos
nos poderiam ter salvo
E também a luz a força
de corpos jovens e ágeis
corças panteras e potras
mais belas quanto selvagens
à lei do que há-de ser podre
todavia condenadas
Antes o fim que nos coube
Se é que fim pode chamar-se
a este abraço em que somos
um só astro uma só ‘státua
uma só chama um só tronco
por toda a eternidade
mais livres porque um do outro
um ao outro acorrentados
Ninguém nos venha em socorro
Ninguém nos deslace os braços
David Mourão-Ferreira

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