Seguindo pelo caminho já tão familiar, reconhecendo cada curva, cada pedra, eis que me encontro novamente com o Grande Carvalho.
Árvore Sagrada, frondoso, gigante, ainda hoje me impressiono ao olha-lo. Toco o seu tronco, sinto a textura da casca que o cobre. Como quem faz uma vénia baixo-me, sento-me, encosto-me e abraço as suas raizes rugosas sentindo a seiva que corre dentro delas. Fecho os olhos, ouço o som do vento nas suas folhas fortes, trazem palavras de outros tempos, segredos esquecidos, deixo-me voar ao encontro deles...
"... – UM é para a Fonte, a Origem Divina, inominável, desconhecida, para além da percepção.
- DOIS é para o Deus e a Deusa, macho e fêmea, luz e trevas, todos os opostos que se encontram e se separam e se juntam novamente.
- TRÊS é para a criança Divina que nasce da sua união, e três são os rostos da Deusa que dá vida ao mundo.
Ainda lembro as palavras ditadas no tempo em que era apenas uma donzela, no tempo em que era apenas uma aprendiz de sacerdotisa. Agora carregava sobre mim o peso de alta sacerdotisa e carregava dentro de mim uma semente de ti...
...Era a noite em que se acendiam as fogueiras de Beltane, os festivais em que homens e mulheres se deitavam juntos para trazer o poder do Senhor e da Senhora ao mundo, só as sacerdotisas com votos de celibato para preservação dos poderes mágicos superiores ficavam á parte. Como alta sacerdotisa cabia-me a mim a abertura da celebração, cabia-me a mim receber o Óraculo contendo em mim os poderes da vidência.
Eras um romano de visita á nossa aldeia druida, trazias em ti um mundo que para mim era desconhecido e olhavas o meu com respeito e curiosidade.
... Agora e prestes a trazer ao mundo uma parte de ti senti a tua mão agarrar a minha e acariciar a minha face num gesto de temor. Num último esforço dei á luz depositando nas tuas mãos o fruto do nosso amor proibido. Cortaste o cordão que nos unia e olhaste para mim. Com as lágrimas a percorrerem a tua face murmuraste:
- É uma menina. A nossa menina!
Envolta em panos brancos olhei o tesouro que me estendias. Puxei-te para mim e abracei-vos aos dois. Com o coração despedaçado reuni forças para te dizer:
- Agora deves de partir. Devem partir os dois!
Olhando a lua saboreei o amargo da vossa partida. Terias de criar a nossa filha sem mim. Entreguei nas tuas mãos o meu maior tesouro, o nosso maior tesouro. Num grito de dor que me sofucava a garganta chorei um rio de lágrimas de saudade sabendo que não mais vos voltaria a ver. Acariciada pela lua adormeci de exaustão, entregar-me-ia á Deusa Mãe..."
... – Amor, amor. Acorda amor!
Abri os olhos sentindo ainda no coração o peso da vossa partida e o gosto amargo das lágrimas.
Vi o teu rosto. Sorriste-me:
- Adormeceste á sombra do carvalho...
Num esforço abri ainda mais os olhos. Ali estavas tu e trazias pela mão o nosso tesouro de longos caracóis... abracei-vos com toda a força que tomou conta do meu corpo... Não! Desta vez não vos deixo partir!
- Que se passa? Que tens? –Perguntaste.
- Foi apenas um sonho... Apenas um sonho antigo!

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