As horas
passam... os minutos ... os segundos... os dias sucedem-se... os meses seguem
os seu curso e desvanecem-se num ano... o diagnostico mantém-se em suspense e
os devastadores efeitos dos duros tratamentos mantêm-se, prolongam-se sem se
apagarem no tempo.
De um
momento para o outro a linha da vida fica suspensa num limbo de impossíveis, de
“ses”, de “mas”, de tentativas, de experiencias e de longas esperas. Tentamos,
experimentamos e esperamos algo... esperamos...
A ansiedade
cresce, a esperança dança entre uma ou outra palavra dita numa nuvem negra de termos
eloquentes. Aprendem-se nomenclaturas desconhecidas que com o tempo passamos a
discursar com a facilidade de verdadeiros sábios.
Somos transportados
para todo um novo mundo a que de repente chamamos quase de casa, chamamos quase
de lar, um lugar onde encontramos novo alento num labirinto imenso de novas
caras, cheiros que reconhecemos, sons familiares, texturas que nos bastam de
aconchego quase com ternura.
Existe um
local dentro de mim onde encontro alguma paz, alguma calma e onde adormeço os
sentidos e a consciencia abranda...
O que se
vive passou agora para uma nova dimensão, renascemos numa mesma pele e
reinventamo-nos num mesmo eu, somos apenas o que somos e nem nós mesmos podemos
dominar essa força, desdobramo-nos em energia e vontade que desconheciamos
conter, agarramos o mundo inteiro numa gota apenas e somos um pequenino grão de
areia num imenso deserto ou uma grande e brilhante estrela num universo por
inventar.
Inventores
de nós mesmos, abraçamos um novo dia que desponta cada manhã, que olhamos de
frente com um novo mesmo olhar, enfrentamos o mundo que nos pesa, que nos olha
com piedade, que nos discrimina, que nos afasta, mundo ao qual viramos as
costas disfarçando o seu pesar.
Estendemos a
mão á vida que continua a correr vertiginosamente, como se de um filme se
tratasse, sem descansar tentando acompanhá-la, sorrimos esquecendo o que vamos
deixando pelo caminho guardando no coração o maior e na alma o melhor.
Na realidade
reconhecemos apenas o amor, sentimento maior e verdadeiro que alcançamos e
acarinhamos sobrepondo-nos ao mal maior, somos herois invisiveis e sobreviventes
de uma luta contra a ceifa a qual nos recusamos acompanhar.

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